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domingo, 31 de agosto de 2014

Exclusivo! A Evolução e os Retrocessos da Gestão no Futebol Brasileiro – Com Isaías Tinoco


O FutGestão teve o grande prazer de conversar com Isaías Tinoco, um conceituado Gestor do Futebol Brasileiro com diversos títulos na carreira.

Isaías sempre foi pioneiro neste segmento, começou no futebol como preparador físico das categorias de base do Flamengo, ainda na década de 70. Formou-se na primeira turma em administração esportiva no Brasil, e daí pra frente assumiu vários cargos administrativos no clube da Gávea, e também no Vasco da Gama, até chegar à gerência de futebol, o primeiro
 

Aproveitando o momento do Futebol Brasileiro, acionamos o Isaías para um bate-papo e saber dele, qual sua opinião em relação à evolução da gestão no futebol durante todos esses anos e também seus retrocessos (que possam justificar o atual momento). 

Veja a conversa na integra: 

FutGestão: Sabemos que das ultimas três décadas até hoje muitas coisas evoluíram, principalmente em termos de MKT e também de Gestão no geral. Qual sua análise do cenário atual?

IT: A história do desporto no Brasil ainda é muito recente, e somente agora no século XXI começa a ter mais organização e respeito das autoridades. O futebol, especificamente, tem seu primeiro sintoma de desporto em 1886 com a criação no Reino Unido da IFAB (International Football Association Board) com o intuito de criar, preservar, supervisionar, estudar, e eventualmente mudar, as regras do jogo. Em 1904 sete Países fundaram a FIFA, e em, 1913 a IFAB se torna membro da FIFA  e  foram criadas e adaptadas regras para a globalização do jogo. No incio do seculo passado o Brasil participou da fundação da Conmebol( Confederação Sul Americana de Futebol) e se filiou a FIFA(entidade privada com sede em Zurique). Começaram a surgir e / ou se adequarem  os Clubes para a prática do futebol (final do século XIX e inicio do XX) em estruturas associativas que se mantem até os dias atuais. Os Clubes passaram pela ditadura de Vargas, Guerras, ditadura militar, Copas do Mundo, Olimpiadas, reformas  Constitucionais e Politicas sem alteração na micro e macro estrura do Futebol(ou melhor do desporto). Neste perído os nossos Clubes foram considerados a célula mãe do desporto nacional.

Influenciados pelo caso Bosman o sistema do futebol foi obrigado a se modificar causando um impacto nas relações trabalhistas e estruturais dos Clubes, na Uefa e na FIFA precipitando mudanças radicais no universo do futebol.

No Brasil foi promulgada a Lei 9.615 em 24 de março de 1998, mais conhecida como Lei Pelé (da qual sou crítico), que estabeleceu mudanças significativas no futebol, dentre elas a extinção do "passe”, até então consagrado pela Lei 6.354/76. A “morte” do passe deu-se a partir de 26 de março de 2001.

E aí, como os Clubes não se adequaram, o remédio produziu efeitos colaterais danosos à saúde do futebol nacional. As nossas instituições não são empresas, e para evitar a autofagia criaram um órgão (monstruoso) misto, isto é, dirigentes estatutários comandando dirigentes executivos, ficou pior do que estava.

FutGestão: Podemos considerar que ocorreram alguns retrocessos em relação a década de 90? Quais?

IT: Os Clubes, grandes marcas centenárias, preservam ainda em seus estatutos o dispositivo que são entidades privadas sem fins lucrativos, mesmo com o futebol no mundo tendo se tornado um grande negócio.

O querer impor, no quadro atual, aos Clubes uma dinâmica empresarial (profissional) esta sendo um verdadeiro engodo, se ainda não alteramos a vocação ordinária das associações e, aí, estamos vivenciando o pior efeito colateral desta cirurgia que é a perda da identidade técnica. Nas décadas de 60,70,80 e 90 as equipes se esmeravam para criar os seus atletas, jovens eram formados para defender seus times e a seleção brasileira foi quando tivemos o reconhecimento e grandes conquistas. A partir do século XXI, endossado pela Lei Pelé, as instituições pararam de produzir seus talentos em função da extinção do "passe". Não há segurança de retorno de investimento uma vez que o legislador não observou o lado de quem investe na formação de atletas de futebol. Em vez de considerar a formação como um verdadeiro ensino profissionalizante, os compiladores da lei o colocaram como de abuso e desrespeito a faixa etária. Do ponto de vista técnico, para agregar a minha critica a Lei 9.615, aumentou de forma absurda o êxodo de jovens atletas em período de formação. Recentemente a CBF divulgou números absurdos de transferências da base para o mercado externo.  A gravidade esta no método de preparação do futuro atleta, que nos anos 90 tinha o padrão de qualidade "Made in Brazil" e agora não tem mais. Os jovens saem muito cedo, sem completar o ciclo de aprendizado numa escola reconhecidamente técnica, vão para outro País, outra cultura, outro fenótipo, etc... e ficam exatamente no meio do caminho da formação não aprendem o jeito brasileiro de jogar e muito menos da escola dos Países para onde vão. 

Urge enfrentar o problema de frente para voltarmos ao topo. O "X"do problema esta na Lei Pelé, neste caso, que faculta aos Clubes se afastarem da formação na divisão de base por ser menos trabalhoso e dispendioso. Daí, o colapso, se todos não formam estamos sendo obrigados a importar um número excessivo de atletas. 

FutGestão: Qual sua visão em relação ao futuro deste mercado?

IT: A Lei Pelé foi um avanço, mas é hora de fazermos alguns ajustes para corrigir a atuação do legislador. É obvio que o investimento na base está cada vez menor em função da lei não reservar o direito dos Clubes formadores. A interferência pesada do estado no futebol poderá ser mais grave do que se pensa. Os formadores de atletas deveriam ser incentivados, assim como deveriam ter um limite para utilização, assim como fez o voleibol para evitar o êxodo precoce.

Ajustar o calendário do Brasil ao Europeu(alguns Países nas Américas já utilizam com sucesso), assim os Clubes poderiam voltar a excursionar apresentando o seu produto, valorizando a marca e ganhando com o intercambio técnico.

Criar, urgentemente, a liga nacional de futebol, para cuidar do calendário, competições (em todas as series), formação de atletas, técnicos, executivos, preparadores físicos, etc.

Aprovação da “Lei de responsabilidade fiscal e incentivos” ao Clube formador, em uma realidade brasileira, não como esta colocado hoje, que somente 45 clubes tem tal certificação. 

FutGestão: Quais são os Planos do Isaias no Futebol?

IT: Continuar a trabalhar. Amo o futebol.
Não posso ficar de braços cruzados e ver o que aconteceu na Copa do Mundo. O Futebol sempre foi um meio de Educar, formar o homem e não um simples negócio. É preciso evoluir sem o afastamento do objetivo principal que é manter a expertise. Aprender sempre e adaptar os novos ensinamentos ao nosso modo de vida. Ainda temos a melhor escola de jogadores de futebol. Eu sempre procuro valorizar a parte técnica, pois quem tem uma boa técnica aprende bem a parte tática.
E ideia para o futuro é desenvolver convênios de aprendizagem seletiva. 

FutGestão: Para finalizar, mande um recado para nosso leitores que pretendem trabalhar com o Futebol!

IT:Nunca acredite quando disserem que o teu time é muito ruim, por outro lado não se deixe levar por aqueles que dizem que o teu time é muito bom. O que faz o time ser muito ruim ou muito bom é os noventa minutos. Então se prepare para cada jogo como se fosse o último. 

Agradecemos imensamente ao Isaías pela disponibilidade e desejamos todo o sucesso na sequencia de sua carreira, pois sabemos que ele ainda tem muito a fazer pelo esporte. 

Saudações,
Equipe FutGestão

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