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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Gestão moderna dos clubes esbarra nos estatutos do passado

Especialistas pedem bom senso para reciclar administação amadora e criticam projeto de refinanciamento de dívidas


por Gian Amato

 
RIO - Menos paixão, mais razão. É a fórmula para a gestão profissional dos clubes, na conclusão de especialistas. No balcão de negócios impregnado atualmente no futebol, o torcedor nem sempre assiste ao jogo com conforto no estádio, tem dificuldade para comprar ingresso e sofre com a falta de estrutura dos sistemas de transportes públicos, mas segue fiel ao time e ao produto. Os conselhos e diretorias se constituem por meio de uma ação entre amigos, prática comum há um século. Sem saber ao certo como gerir tamanho potencial econômico, dirigentes brasileiros veem aumentar a distância em relação à Europa não apenas dentro das quatro linhas, mas fora delas, onde perdem de goleada no campo das receitas.
Com dívidas gerais que ultrapassam os R$ 4 bilhões, os clubes serão beneficiados pela aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, do deputado federal Otávio Leite (RJ). O projeto substitutivo está para ser votado na Câmara, mas apenas a parte que trata da renegociação das dívidas, o que é um erro, na opinião de Antônio Carlos Kfouri Aidar, diretor de controle da Fundação Getúlio Vargas — Projetos, e um dos autores do estudo “Negócios do Futebol”, publicado pela FGV.
— Esta lei corre o risco de não resolver nada, porque a gestão é tratada com paixão e com com zero grau de profissionalismo. Não basta renegociar as dívidas, os clube têm que ter estatutos e diretorias profissionais, com presidente e vices renumerados e organograma empresarial. Hoje em dia, a gestão é amadora, sem remuneração, e isto é muito ultrapassado para um mercado que gera milhões. O presidente do Botafogo (Maurício Assumpção), por exemplo, deve três meses, não paga, e fica por isto mesmo — declarou Aidar.
Exemplo europeu
O projeto a ser votado na Câmara prevê a apresentação das Certidões Negativas de Débito (CND) pelos clubes como condição para a disputa de campeonatos. As dívidas com FGTS, Banco Central, Timemania, INSS e Imposto de Renda serão parceladas em até 25 anos, com o rebaixamento como punição ao possível calote.
— Por mais que o Governo esteja bem intencionado, ele não poderá intervir na gestão dos clubes. A bancada da bola não quis, então, a questão do estatuto passa ao largo. E, sem isto, não profissionaliza. Deveria haver algum dispositivo que proibisse a inclusão de clubes com quadro social na revisão da dívida, porque é impossível gerir um clube com um conselho formado por mais de 500 pessoas. Não pode. Na Europa, o futebol é profissionalizado e tratado de maneira independente — explicou Aidar.
Consultor de marketing esportivo, Amir Somoggi também é a favor da modernização dos estatutos.
— O estatuto é importante, tanto que impede que o Governo faça o que tem vontade. Mas estar adequado aos tempos modernos é crucial. Alguns clubes até reformularam seus estatutos, mas foi uma reforma voltada para a política, não para a gestão — declarou Somoggi.
O estudo da FGV utiliza como exemplo os times de sucesso da Europa e questiona por que o Corinthians e o Flamengo, com muito mais torcida, não têm uma receita semelhante. Ou pelo menos aproximada. Sem considerar venda de jogadores, o Flamengo, em 2011/2012, teve € 74 milhões de receita, abaixo até mesmo do São Paulo (€ 82 milhões) e do Corinthians (€ 94 milhões). O Juventus, décimo entre os dez mais do ranking europeu de receitas, arrecadou, no mesmo período, quase € 200 milhões. No topo está o Real Madrid, € 513 milhões, seguido pelo rival Barcelona, com € 483 milhões. Os números são creditados à Deloitte, empresa inglesa de auditoria.
No estudo da FGV, a deficiência na estrutura de gestão seria a explicação para o fato de os times brasileiros com maior número de torcedores não ter o mesmo potencial de arrecadação dos clubes europeus.
— Pior ainda para os times considerados pequenos. Será a morte dos times mais fracos, o que já está em curso — disse Aidar.
receita reduzida
Outro estudo, divulgado pela consultoria e auditoria BDO, comprova a dificuldade de os clubes brasileiros (dependentes das cotas de transmissão de TV, antecipadas para cobrir rombos financeiros, e não para investimento a longo prazo) incrementarem as suas receitas com outras fontes, como bilheteria, venda de produtos licenciados e programas de fidelização.
O Corinthians, por exemplo, teve sua receita reduzida em 12%, de 2012 para 2013, caindo de R$ 358 milhões para R$ 316 milhões. Estes números incluem transferências de jogadores. Sem a inclusão de negociações, a redução foi de 24%. Mesmo o Flamengo, que teve uma variação de 29%, aumentou pouco a receita, de R$ 212 milhões para R$ 272 milhões. Já o Fluminense caiu 17%, de R$ 151 milhões para R$ 124 milhões. Entre os 24 clubes analisados pela BDO, o volume de recursos diminuiu R$ 171 milhões em 2013 — uma queda de 6% do total obtido em 2012.
A fonte de toda a má gestão disseminada pelos principais clubes do Brasil parte do princípio básico da economia: os dirigentes gastam mais do que arrecadam. Amir Somoggi lembra que a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte é falha neste aspecto.
— Neste projeto, está claro o refinanciamento das dívidas com o Governo. O que não está claro é a contrapartida em relação ao processo deficitário. Qual será a punição para o clube que gasta mais do que arrecada? A lei vai punir o Botafogo, por exemplo, se o clube fechar o ano com R$ 80 milhões de prejuízo? E sobre os empréstimos bancários? Existe outro mundo fora da esfera governamental — disse Somoggi.
O consultor recorre aos números para mostrar o crescimento das dívidas gerais dos clubes:
— Em dez anos, o acumulado da dívida chegou aos R$ 2,5 bilhões. São R$ 700 milhões apenas nos últimos três anos. Estão gastando mais do que arrecadam. Disto, a lei não trata...
Em um levantamento realizado por Somoggi, há a comprovação de que todos os times da Série A, mais o Vasco, que disputa a Segunda Divisão, aumentaram o custo do departamento de futebol de 2012 para 2013.
Ainda segundo o estudo produzido por Somoggi, as dívidas dos clubes analisados somaram R$ 5,1 bilhões em 2013, um aumento de 6% em comparação a 2012 (R$ 4,8 bilhões).

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