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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Os torcedores e o futebol brasileiro

Gostar do que faz e trabalhar com paixão é uma das grandes questões do mercado atualmente. O futebol pode proporcionar isso, aliar o trabalho com uma das maiores paixões do brasileiro, porém, até onde é bom um clube ser controlado por dirigentes apaixonados?
 
O futebol tratado como um negócio possui algumas particularidades em relação ao mercado em geral. Uma delas é o fato de que nele o colaborador e o dirigente pode, literalmente, vestir a camisa da empresa.
Até certo ponto isso pode trazer benefícios ao clube. Oras, imagine trabalhar na área que gosta (RH, marketing, finanças, gestão) e como resultado o seu time do coração melhorar e se tornar um dos melhores, ou até mesmo ganhar títulos, fruto da sua participação. Para um apaixonado por futebol esse é um fator motivacional incrível.
 
Porém, existem alguns problemas nessa história. O primeiro, e mais palpável, se verifica do não profissionalismo da gestão do clube, o que significa que o presidente e vices não recebem remuneração para prestar tal trabalho. São voluntários que dedicam parte do seu tempo para gerir o clube, enquanto por outro lado não devem (ou não deveriam) deixar de lado suas carreiras profissionais.
O segundo problema é a própria paixão do dirigente. Mas, podem me perguntar, como a paixão pelo trabalho, pelo clube, podem atrapalhar a gestão e até mesmo falir um clube?
Simples. Inicio fazendo as seguintes perguntas
  • Você como torcedor, como um apaixonado pelo clube, não lutaria contra todos para ver seu time campeão?
  • Buscaria as melhores contratações?
  • Você não recriminaria um juiz que falhou em um lance capital em um jogo?
  • Ou mesmo não defenderia o seu atacante se pelo pênalti cavado o time vencesse o jogo?
Acredito que todos responderiam positivamente em quase todas as perguntas. Claro, somos todos torcedores, e como tal, nosso time deve ser o melhor do mundo independente do que se aconteça (os fins justificam os meios).
O fato é que um gestor de uma empresa não deve nunca vislumbrar uma gestão apenas apaixonada. Porém, exemplos contrários não faltam.
Recentemente, no caso Aranha, dirigentes do Grêmio (e o próprio técnico) chegaram ao ponto de refutarem a existência de racismo afirmando que fora apenas uma encenação do goleiro e miraram seus esforços em críticas ao STJD, ao invés de realmente assumirem o fato e trabalharem para que a imagem do clube não fosse arranhada e que o Grêmio não fosse visto como um clube racista como vem ocorrendo pelo Brasil. Neste exemplo também critico a falta de conhecimento dos dirigentes ao CBJD, algo inconcebível em qualquer outro mercado (que economista ou contador desconhece as regras e normas do sistema financeiro e contábil?).
Além disso, o dirigente torcedor pode colocar em risco todo um planejamento estratégico e um plano financeiro por água abaixo apenas para tentar fazer o seu clube campeão. A paixão sobressai sobre a razão e o planejamento pode se tornar inerente às suas vontades. Afinal, ver seu time campeão, mesmo destruindo a saúde financeira, é mais importante do que torna-lo rentável e sustentável. Ou você acha que as ações do presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, emprestando dinheiro próprio ao clube possui algum embasamento racional?
 
Poucos, principalmente no Brasil, possuem a coragem e a capacidade de tornar a gestão do clube menos apaixonada e torna-la profissional pautada e embasada em conceitos, conhecimentos e métodos largamente utilizados em outros mercados. Nenhum dirigente visualiza que dar um passo atrás, equacionando os problemas do clube e buscando se reposicionar, pode ser muito mais importante do que levantar um título isolado em uma temporada e tentar não cair nas outras.
É fácil lembrar-se do case do Barcelona descrito detalhadamente no livro “A bola não entra por acaso”, no qual a gestão de 2003 pegou um time sem brilho e com muitos problemas e através de um planejamento financeiro e estratégico sucinto equacionou primeiramente as dívidas do clube para depois reposicionar o Barcelona como “mais que um clube”
 
Ou seja, ao invés de gastar fortunas  com contratação e salários de jogadores de impacto apenas imediato, isso quando há impacto (lembrem-se da contratação do Adriano e do Jóbson por vários clubes), a gestão focou numa operação econômico-financeira sustentável que balizasse o futuro do clube, e não apenas o momento atual, com consequência direta em todos os processos, desde o marketing até os resultados em campo.
Acredito que uma das soluções para o case brasileiro é, sobretudo, a criação de responsabilidades fiscais e econômicas aos dirigentes, derivado da profissionalização formal da gestão e dos cargos relacionados. Isso trará como consequência a necessidade de profissionais e dirigentes realmente capacitados para conduzir o clube tal qual uma empresa (e por senão sendo uma empresa) e que se preocupem não apenas com a obtenção de títulos na temporada, mas na gestão e perpetuação da governança corporativa e do equilíbrio econômico-financeiro do time.
E o grande problema disso é que essa solução depende, quase que exclusivamente, da boa vontade de políticos e engajamento de torcedores e jogadores para que aconteça, já que apoio dos próprios dirigentes isso nunca acontecerá.
Fonte: Site DeCanhota

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