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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Em contextos ora de reclamação, ora de celebração de uma (suposta) evolução, ou apenas como uma mera constatação despretensiosa, é comum ouvirmos alguém bradar “o futebol mudou muito”. Há os que sabem o que querem dizer com isso e aqueles que apenas reproduzem o clichê. Mas, o que realmente mudou no futebol moderno?

De fato, houve, ao longo dos anos, numerosas mudanças no futebol. Vou me limitar, porém, a discorrer aqui sobre as mudanças relativas ao “dentro das quatro linhas”, deixando de lado, portanto, outras – tão e talvez até mais importantes para o esporte bretão (cifras envolvidas, mídia, público, gestão e marketing, empresários, transferências, etc.). Papo para outro momento.

Como primeiro exemplo de mudança com reflexo direto no jogo cito os avanços em áreas de conhecimento da ciência. É evidente, hoje, uma preparação muito mais eficiente dos atletas tanto no que diz respeito à parte física quanto até mesmo psicológica. Como decorrência de técnicas e métodos mais evoluídos nesses âmbitos, temos, em regra, jogadores mais resistentes, fortes, velozes e preparados para lidar com a pressão. Jogadores percorrem, hoje, por exemplo, mais ou menos o dobro da distância em campo de jogadores da década de 60. Além disso, quanto à fisiologia, os avanços na prevenção e no tratamento de lesões fazem com que os melhores jogadores atuem com mais frequência e por mais tempo.
Detalhes como a qualidade dos gramados e dos materiais esportivos (roupas, chuteiras e até a bola) e a evolução dos métodos de treinamento igualmente refletem em um ganho considerável de qualidade na parte técnica do jogo e dos jogadores, se comparado a décadas atrás.
Alterações nas regras do jogo também influenciaram, de certa forma, no jogo, sobretudo na velocidade e nas estratégias dos treinadores. Até 1958, eram proibidas, por exemplo, substituições de jogadores no decorrer das partidas. A partir daquele ano, foi autorizada 1 alteração, além do goleiro, número este que subiu para 2, em 1970 e, finalmente, 3, em 1995. Os cartões amarelo e vermelho foram implementados em 1970 e a proibição de os goleiros utilizarem-se das mãos nos casos de recuos com os pés se deu em 1992. Como último exemplo de mudança relevante na regra, cito a alteração da pontuação da vitória, de 2 para 3 pontos, em meados da década de 90.
Quanto à parte tática, a altíssima competitividade exige atualização e estudo constantes por parte dos treinadores. E os “professores” do futebol nunca tiveram tanto acesso, e com tanta velocidade, a informações e ideias alheias.
A evidenciar as mudanças de paradigmas nesse âmbito, lembremos que até a década de 60, jogava-se, em regra, com defesas em linha, laterais presos à marcação, 3 ou 4 jogadores no ataque, etc.. Tomando-se a década de 90 como exemplo, a regra no Brasil era o 4-2-2-2 e na Europa: o 4-4-2, em linhas. Ambas com laterais alternando-se no ataque, dois jogadores defensivos e dois ofensivos no meio, um atacante mais rápido e um centroavante fixo (não, não é impressão sua, vários treinadores realmente ainda adotam esse tipo de sistema de jogo).
Hoje, mais precisamente do final da década passada pra cá, a “tática da moda” tem sido o 4-2-3-1 e, mais recentemente, o 4-1-4-1, consagrada no Bayern de Munique campeão de tudo na temporada 2012/13 e que já ficou para trás com as grandes evoluções e inovações proporcionadas por Pep Guardiola.
No jogo contra a Roma o novo Bayern com apenas 1 zagueiro e Xabi Alonso onipresente no campo distribuindo. Fonte: ESPN.
 
Não é, porém, no posicionamento dos jogadores, ou disposição tática, que reside a principal diferença do futebol moderno. A compactação das equipes, a rapidez e a dinâmica do jogo e a multiplicidade de funções de um mesmo jogador são características marcantes no futebol atual.
Perderam espaço os zagueiros que só sabem desarmar e chutar para onde o nariz esteja virado, os volantes que se limitam a defender e entregar a bola para quem estiver mais perto, o centroavante que não se dá bem fora da área, etc. etc. Vemos volantes com características de meias, meias com atributos de volantes e de atacantes, centroavantes com mais participação (e com mais condições para tanto) nas linhas de passes, goleiros com funções de líbero, etc.
Tal como o aprimoramento dos jogadores em atributos não primordiais à sua posição, a participação na marcação por parte de todos os atletas (ou pelo menos de um número muito maior se comparado a anos atrás) é medida indispensável no futebol de ponta de hoje. Anos atrás, ninguém imaginaria, por exemplo, jogadores do nível de Cristiano Ronaldo, Robben, Ribery, Bale e Di Maria acompanhando laterais. Estranharia, também, jogadores das posições em que atuam Mandzukic, Benzema e Lewandowski dando combate e participando ativamente da busca pela recuperação da bola. Pois no atual nível de competição, abrir mão de um ou outro jogador no sistema de marcação, como se via até poucos anos atrás, pode ser fatal.
 

Quanto ao dinamismo do jogo, notam-se, hoje, constantes trocas de posições no decorrer da partida, especialmente no meio-campo. Em decorrência disso, fica difícil, por exemplo, definir a exata posição em que atuam jogadores como Yaya Touré, Iniesta, Xavi, Pogba, Pirlo (de alguns anos atrás), Vidal, Schweinsteiger, entre tantos outros.
Nesse jogo de espaços reduzidos, rápido, dinâmico e de equipes compactas e com sistemas de marcação muito fortes, o jogador moderno de excelência depende cada vez mais de outras virtudes além da aptidão técnica. Força, condicionamento físico, consciência tática, aprimoramento da parte técnica em atributos secundários (não primordiais à sua posição) e, sobretudo, inteligência. Velocidade de raciocínio para ler o jogo, para saber se posicionar e, principalmente, para tomar as decisões corretas em um curto espaço de tempo.
Enfim, há quem prefira o futebol de alguns anos atrás, em que o “camisa 10 clássico” não tinha tantas responsabilidades defensivas e tinha tempo e espaço para pôr em prática toda sua criatividade. Talvez o jogo fosse mesmo mais bonito. Questão de gosto. Eu, particularmente, aprecio esse “futebol moderno”, veloz, dinâmico, estudado e, para mim, não menos emocionante.

Fonte: Site DeCanhota (Por Bruno Lajús)

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