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quinta-feira, 31 de março de 2016

Como um pequeno clube sobrevive?

Um tema que tem sido frequente no nosso futebol Brasileiro é o debate sobre os Estaduais perante um calendário enxuto e Campeonatos Estaduais com nível cada vez mais fraco. E inevitável ao ver o nosso calendário em que há um inchaço de jogos, muitas datas sendo ocupadas pelos estaduais com jogos de nível técnico fraco e estádios vazios, o apelo que os clubes grandes tinham de público sobre as regiões do interior, hoje já não são garantia de estádios lotados e a procura para acompanhar seu time do coração ou até mesmo um rival, não existem mais.

Antes vivíamos muitas histórias de grandes confrontos entre os times tradicionais e forças do interior, os confrontos que antes eram desafiadores no Godofredo Cruz em Campos contra o Americano, no Eduardo Guinle em Friburgo contra o Friburguense, para Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco hoje já não empolgam mais.

As tardes de domingo de XV de Piracicaba x Corinthians no Barão de Serra Negra, os confrontos entre Marília x Palmeiras no Bento de Abreu Sampaio Vidal e os duelos com Santa Cruz lotado entre Botafogo x São Paulo que movimentavam Ribeirão Preto e a capital já não são mais tão animados como eram antes, com enfraquecimento dos torneios estaduais até o Canindé, lar do Segundo clube do coração do Paulistano e com uma torcida fiel, sofre com médias de público pífios de menos de 2 mil pessoas e rendas que geram prejuízo aos clubes.

Sem contar com o nível técnico fraco das equipes de menor expressão, clubes que antes revelavam atletas e depois negociavam com os clubes grandes trazendo um bom dinheiro para os clubes se manterem hoje já não acontecem, revelações como Acácio no Serrano, Raí e Sócrates no Botafogo e para ser até mais singelo na análise, hoje os clubes pequenos não conseguem formar 3 revelações de qualidade por campeonato para atuar em uma Série A ou B do Brasileiro, como foram Muriqui, Maicon hoje no Grêmio, Souza e Léo Lima, revelados pelo Madureira, Wellington Nem do Nova Iguaçu, Hyuri do Audax, Almir do Bangu, que talvez não sejam do gosto de todos os torcedores dos clubes por onde passaram, não sejam os craques que tanto esperamos e merecemos, mas são jogadores que movimentaram boas cifras nas suas saídas.

No estadual de São Paulo conseguimos extrair ainda com mais sucesso atletas como Felipe, Romarinho, Bruno César, Ralf, Paulinho, Elias que tanto ajudaram e ajudam o Corinthians, Paulinho (ex-Flamengo e XV de Piracicaba e hoje no Santos ), Renato, Elano, Ricardo Oliveira, ídolos da Vila-Belmiro; Carlinhos, Hudson, França e Edmílson, atletas do atual elenco e campeões do tricolor paulista; e o que falar de Rivaldo, Roberto Carlos, Luizão e Mauro Silva, todos vindo do interior para formar o maior time dos últimos tempos do Palmeiras. Jogadores assim não seriam lançados se não houvesse os Estaduais e na sua memória ainda há inúmeros ídolos que saíram dos pequenos clubes, até mesmo treinadores como Wanderlei Luxemburgo não aparecem com tanta facilidade como antes surgiam;

Mas aonde erramos?  E o que precisamos fazer para mudar? Porque se muitos jovens são formados no Brasil e a cada Copinha enxergamos talento, o que fazer para esse talento se desenvolver?

Por conta de eleições cada vez mais contestadas das federações, as competições têm aumentado de tamanho e mudado de formato a cada biênio, para satisfazer os pequenos clubes que garantem perpetuar presidentes de Federações nos seus cargos, gestores que ainda enxergam o futebol com uma visão retrograda, sem análise de Mercado, sem saber ao menos criar uma estratégia de Marketing para saber promover as competições das quais são responsáveis de organizar.

Regulamentos confusos, tabelas que incluem clássicos as vésperas de jogos da Libertadores, número baixo de jogadores inscritos que impossibilitam revezar melhor o elenco e lançar jovens atletas, estádio sem laudo para realização de partidas as vésperas dos jogos, afastam patrocinadores, torcedores e recebem enxurradas de críticas por conta da falta de credibilidade que se assemelharam aos estaduais.

Usarei dois exemplos para mostrar que o pensamento daqueles que enxergam mudanças nos estaduais não são utópicas, nem “frescuras”, como dizem os retrógados do futebol.
O primeiro exemplo é a relação do Lanús e Banfield, o Clássico Del Sur, os dois clubes se encontram em bairros próximos a província de Buenos Aires e Avellaneda, mesmo pequenos comparados a Boca Juniors, River Plate, San Lorenzo e outros times gigantes da região, essa dupla consegue resultados expressivos e fomentam uma rivalidade de dar inveja a muitos clássicos regionais do Brasil. Banfield e Lanús são localidades na Grande Buenos Aires.

Os dois clubes são de distritos homônimos, o primeiro na região de Lomas de Zamora e outro na região de Lanús. Diversas ações são realizadas para fidelizar o torcedor da província com o clube, o Lanús é conhecido como um dos maiores clubes de bairro do mundo e ostenta ser grande em meio aos gigantes, hoje na nossa primeira divisão só encontramos dois times de fora da capital (Chapecoense e Ponte Preta), e somente um clube de menor expressão da capital, o América Mineiro.

Clubes como Bangu, América, Guarani, Portuguesa, São Caetano, Santo André, clubes da região metropolitana de Rio de Janeiro e São Paulo, que já foram protagonistas e hoje não conseguem figurar nem entre os clubes da Segunda Divisão, e carecem de clubes nos outros Estados também, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, não possuem referências similares.

Uma fórmula que poderia ser eficaz para os nosso Estaduais, seria estimular a volta dos dérbis e unir as empresas da região destes clubes em uma relação em sociedade comercial, por conta da exposição do período dos estaduais, essa era a fórmula antiga que perdemos a mão, “sumimos” com o “Ameriquinha “ do Tim Maia e do Trajano, do Edu Coimbra e muitos outros craques, o Bangu de Zizinho, Paulo Borges e Mendonça, não encanta mais aos jovens atletas, Amorosos “, “ Netos “, Zenons “, não surgem mais nas bases do Guarani, nem jogadores similares, hoje com o inchaço de clubes e calendário pouco abrangente, um atleta enxerga com demérito surgir de um clube pequeno, porque corre risco de ficar meses sem emprego após o Estadual.

Querem salvar os Estaduais, salvem os dérbis, os Comercial e Botafogo de Ribeirão, diminuam a quantidade de rodadas sem atrativo e clubes sem expressão, ao invés de 20 times, com 4 grandes, 1 time revelação e 15 times de nível fraquíssimo, prezemos pela qualidade e não pela quantidade, tenhamos regras claras e estádios cheios, empresas da região patrocinando os clubes com identidade da região.

Outro exemplo vem da Inglaterra, aonde temos uma quantidade de clubes parecidos com o Brasil, a tese de que os clubes grandes salvam os pequenos não existe na Inglaterra, já que muitos deles passam anos sem enfrentar os gigantes da Premiere League, como Manchester United, Chelsea e Liverpool.

O Exeter City, conhecido como primeiro a enfrentar a Seleção Brasileira, ostenta sua história rica e tradicional para aqueles que frequentam seu estádio e mesmo na quarta divisão possuem uma média de público maior do que a do Campeonato Carioca, Gaúcho e da média dos Estaduais (Como mostra os números abaixo), a média de público da 4 divisão inglesa é superior a 4 Mil pessoas, uma média de dar inveja a muito clubes grandes no período dos Estaduais.

Ingressos condizentes com a realidade e um trabalho de fazer o torcedor do clube pequeno, porém tradicional faça parte da estrutura do clube são os combustíveis para o desempenho muito melhor do que nossos times e mesmo com um campeonato de nível técnico muito inferior ao nosso estadual e qualquer Campeonato Nacional no Brasil.

Os confrontos contra os times de maior expressão se resumem somente a campanha na Copa da Inglaterra, a copa mais antiga do mundo, aonde todos os times do país podem se inscrever, e o clubes como Exeter City, só conseguem enfrentar os poderosos clubes da Premiere League caso avancem, em confronto único em mando de campo sorteado, que gera uma certa imprevisibilidade e todo ano fazem nascer uma história de um confronto Davi contra Golias, como as campanhas do Luton Town e do próprio Exeter City nas últimas edições da copa, mostrando que é possível sim, existir durante um ano sem confrontos excessivos contra os clubes grandes, por conta de terem um calendário forte, uma gestão responsável e o conhecimento da tradição do clube e fazer disto uma identidade.
Esse texto não busca dar soluções, mas sim mostrar que há caminhos viáveis para estes clubes tradicionais e com uma história tão rica e serviços prestados ao nosso futebol.

Por: Arthur Viana

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