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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Maracanã e sua última reforma estrutural: como a mudança física do estádio mudou a forma de torcer

Por Angelus Bravin dos Santos

O estádio jornalista Mário Filho, o Maracanã, considerado ícone nacional e internacional, está presente na sociedade brasileira de maneira intensa, seja por receber grandes jogos, seja por permitir o uso do complexo esportivo pela população. Por décadas, manteve a fama de espaço democrático, inclusive quanto à maneira de cada torcedor manifestar seus sentimentos em relação ao seu time. Mas a reforma estrutural pela qual o estádio passou provocou transformações significativas no comportamento individual do torcedor, acabando por gerar, por meio de uma reação em cadeia, uma mudança comportamental coletiva. 

Quando o Brasil fora escolhido como sede da Copa do Mundo de 1950, havia no país poucos estádios capazes de comportar jogos com público elevado o que levou o debate para a criação de mais locais para receber as partidas do famoso campeonato. Nessa leva, o Maracanã surgiu como o principal estádio, o que se mostrou evidente em sua escolha como local da final da Copa do Mundo, evento em que recebeu milhares de pessoas oriundas de vários países. Nas décadas seguintes, a população da cidade compareceu em massa aos  jogos ocorridos nesse estádio, por ele estar localizado em um local de fácil acesso,com ingressos que contemplavam praticamente todas as classes sociais, permitindo, assim, ao torcedor sua mais pura expressão do ato de torcer. O Maracanã transformou-se, por conta disso, na materialização do futebol brasileiro.

A torcida podia se expressar como desejasse: cantando, pulando, assistindo aos jogos em pé, com bandeiras e faixas, além de poder usar elementos pirotécnicos. O estádio era um ambiente acolhedor para a torcida, porque permitia a todas as classes sociais se fazerem presentes com liberdade para torcer de forma extremamente lúdica, o que era facilitado pela arquibancada e setores populares, dois elementos da estrutura física fundamentais para a interação entre os torcedores. Mas esse ludismo foi se perdendo em função das exigências impostas pela administração do atual Maracanã, cuja última reforma descaracterizou seu perfil democrático e lúdico que emanava justamente desses setores.

As arquibancadas e os setores populares permitiam o fluxo de torcedores, além de possibilitar a exposição de grandes bandeiras e a instalação de faixas, o que já não é mais possível, pois existem agora somente cadeiras, em todos os setores, obrigando os torcedores assistirem ao jogo sentados, diferentemente do que ocorria antes da citada reforma, quando a torcida abrilhantava, de pé, a festa para a qual levavam, além de faixas e bandeiras, balões de ar com a imagem do time.


Essas mudanças impactaram também no valor do ingresso, que sofreu significativos reajustes, impossibilitando a participação, nessa festa do futebol, das camadas sociais desfavorecidas economicamente. Tais modificações levaram o mais famoso estádio brasileiro a agonizar e se ver vazio, sem os torcedores que transformaram o espaço para suas mais puras demonstrações de emoções e anseios. A forma de torcer mudou, mas não necessariamente para melhor.

4 comentários :

  1. Belíssimo artigo.
    Maracanã hoje não passa de apenas mais um estádio.

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  2. Belíssimo artigo.
    Maracanã hoje não passa de apenas mais um estádio.

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  3. Parabéns pelo texto!
    Realmente o Maracanã foi totalmente descaracterizado nesta última reforma. Virou mais uma arena elitista onde o torcedor genuíno foi deixado de lado.

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