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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Esporte Universitário Brasileiro: Indo além do “El Dorado” americano

Por: Lucas Semidei

É normal que quando se cita o termo “Esporte Universitário” lo  o associemos àsligas dos Estados Unidos e aos colleges americanos, seja pelo caixa bilionário que elas movimentam, seja por seus jogos pelo menos os de grande importância serem transmitidos  ao  vivo  por  canais  esportivos  de  grande  influência,  seja  por  serem os “celeiros” de grandes astros que brilharão nas ligas profissionais de lá.

Para  termos  uma  noção  do  tamanho  das  proporções  universitárias  norte-americanas,  segundo  dados  do  jornalista  Steve  Berkowitz  do  USA  Today,  essa ramificação do mercado esportivo teve em 2013 um faturamento de 913 milhões de dólares, algo em torno de 2,1 bilhões de Reais em cotação da época. Para efeito comparativo, a CBF, que tem como principal produto uma seleção de peso global, com marca reconhecida, faturou, no mesmo período, a quantia de 436 milhões de reais, aproximadamente 20% do montante recolhido pelas ligas universitárias.
Os números de público também surpreendem, segundo fontes do site da National Collegiate Athletic Association, entidade máxima do esporte universitário americano, a média de público no ano de 2013 era de 45.671 pessoas por jogo, para efeitos comparativos, no mesmo ano, o “Campeonato Brasileiro – Série A” atingiu como média o número de 14.951 pessoas por jogo, quase três vezes menor em comparação aos dados da NCAA.

Trazendo para realidade brasileira, o esporte universitário nacional não dispõe da mesma estrutura estadunidense, nossas competições normalmente ocorrem em feriados prolongados, com duração média de 4 a 5 dias, em cidades que nem sempre possuem uma estrutura adequada, expondo os atletas a um ritmo que não condiz com esportes de alto rendimento – repito, são apenas 4 ou 5 dias de evento, com disputa de inúmeras modalidades, numa espécie de “mini-olimpíada”. Essa numerosa quantidade de jogos num período ínfimo de tempo deixa claro que o objetivo principal desse modelo de evento não explorar ao máximo qualidade técnica disponível e sim mensurar quem melhor consegue conciliar as noitadas do evento, com o pouco período de descanso e os jogos na manhã seguinte.
Mas o foco aqui não é criticar o modelo acima, pelo contrário, afinal esse tipo de evento consegue mobilizar a economia de cidades que não possuem um víeis turístico muito forte, podemos citar o exemplo do INTERENG-RJ, as Olimpíadas Integradas de Engenharia do Rio de Janeiro, que, segundo dados da empresa organizadora do evento, salto do número de 750 participantes em 2011 para 4.500 em 2017, um aumento de 600% no período. O meu intuito é alertar para a capacidade de suporte que o esporte universitário pode oferecer para as ligas profissionais brasileiras.
Nesse ponto devemos deixar bem claras duas coisas: Devemos evitar comparações com as ligas norte-americanas, as relações clubes-faculdades de lá têm uma tradição centenária, desde 1905 com o presidente Teddy Roosevelt para ser mais exato. Qualquer comparação com essas ligas pode, e vai, tornar as possibilidades que temos hoje desinteressantes. Esqueceremos também o futebol. O modelo desse esporte é peculiar, as cifras envolvidas são cada vez maiores e paga-se cada vez mais por atletas mais jovens, com certeza é uma estrutura que não se adequaria à esse modelo.
As faculdades devem entender que é necessário que elas assumam uma postura relevante no incentivo e fomento ao esporte. Exemplificando isso, podemos citar a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que em 2016 teve a inauguração do seu Complexo de Treinamento para atender as demandas Olímpicas, com a construção de dois campos de Hóquei sobre a Grama, um Campo de Rugby e a reforma da piscina olímpica no Parque Aquático da Escola de Educação Física e Desportos, através de um investimento de aproximadamente R$ 62 milhões. Para se ter uma dimensão do que  esse investimento significou, segundo o presidente da Confederação Brasileira de Hóquei sobre a Grama, o senhor Sidney Rocha, o Brasil se tornava o primeiro país da América do Sul a ter um campo de dimensões olímpicas desta modalidade, tudo isso dentro dos limites de uma faculdade.
Além da estrutura ofertada, as faculdades podem ofertar também uma qualidade técnica às equipes ou então para os próprios campeonatos de forma direta, um exemplo dessa qualidade que vem sido ignorada é a SeleLuca, equipe formada pelos melhores atletas de um outro campeonato da empresa que organiza o INTERENG – dessa vez com um formato um pouco mais longo e uma estrutura que se assemelha um pouco, bem pouco mesmo, com que podemos entender como liga – quem vem demonstrando uma qualidade impressionante no Campeonato Carioca de Futsal dessa temporada, inclusive estreando com uma goleada de 6 a 0 no campeão de última edição.
Esse é apenas um exemplo raso do que os atletas podem agregar ao esporte profissional, vale ressaltar que muitos desses alunos já tentaram uma carreira como atletas mas que por diversos motivos tiveram que não seguir por esse caminho, o que pretendo ressaltar aqui é que a condição de aluno não deveria ser um fator excludente, é claro que traz algumas dificuldades, tanto para os alunos como para os clubes, mas não deveria ser um fator excludente, não deveríamos desperdiçar talentos por conta de condições que podem ser contornadas. O extra-quadra também poderia ser trabalhado através do esporte universitário, a título de exemplo, um time que represente a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a PUC-Rio, ganha de imediato aproximadamente 18.000 simpatizantes, um time da Universidade Federal Fluminense atinge uma média de 65.000 pessoas, isso falando apenas de alunos ativos, sem contar familiares, ex-alunos, professores, funcionários. Sem falar das rivalidades que já ocorrem nesses torneios menores, com certeza traria um tempero a mais para essas competições.
Devemos ver com bons olhos a influência desse nicho no mercado esportivo, nossa estrutura hoje não apresenta resultados significativos, salvo algumas exceções. Temos estádios e arenas cada vez mais vazios, grandes estruturas olímpicas não sendo utilizadas da forma devida, seleções de esportes como handebol, basquete e vôlei tendo indicies de renovação cada vez menores – para efeito ilustrativo a nossa média de idade no handebol feminino durante as Olimpíadas foi de 29,1 anos, enquanto a de basquete masculino alcançou a marca de 32,3 no mesmo período – ao mesmo tempo que deixamos talentosos atletas se esvaírem de vez do esporte e fantasiamos com o modelo americano.

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